Reserva Particular do Patrimônio Natural

Cerrado protegido para sempre na Chapada dos Veadeiros

Quase metade do Vita Park é reserva natural. São 23,27 hectares reconhecidos como Reserva Particular do Patrimônio Natural, a RPPN Vita Parque, em Alto Paraíso de Goiás, no alto da Chapada dos Veadeiros. A proteção é perpétua: está gravada na matrícula do imóvel e vale para qualquer dono, hoje e no futuro. Do outro lado do rio dos Couros, que marca o limite da reserva, começa o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Área
23,27 hectares, dentro dos 48 hectares do Vita Park
Reconhecimento
2001, Portaria IBAMA nº 21/2001 (RPPN federal)
Altitude
1.300 a 1.360 metros
Bioma
Cerrado
Vizinhança
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, do outro lado do rio dos Couros
Contexto
Dentro da APA de Pouso Alto
Plano de Manejo
Funatura, 2025

O que é uma RPPN

Uma Reserva Particular do Patrimônio Natural é uma unidade de conservação criada por vontade do dono da terra. A Lei do SNUC (Lei nº 9.985/2000) a define, no art. 21, como área privada gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica. O compromisso é assinado com o órgão ambiental e averbado na matrícula do imóvel, como regulamenta o Decreto nº 5.746/2006. Numa RPPN só são permitidas a pesquisa científica e a visitação com fins turísticos, recreativos e educacionais, sempre de acordo com o Plano de Manejo.

As reservas federais, como a Vita Parque, são reconhecidas e acompanhadas pelo ICMBio. Segundo a Confederação Nacional de RPPN, o Brasil tem mais de 1.850 dessas reservas, que conservam voluntariamente mais de 800 mil hectares.

Uma amostra do topo da Chapada

A reserva ocupa um trecho do alto da Chapada dos Veadeiros, entre 1.300 e 1.360 metros de altitude. O terreno desce suave até o rio dos Couros, de água límpida tingida de escuro pelos ácidos húmicos. O rio pertence à bacia do Tocantinzinho, parte da grande bacia do Tocantins, e é alimentado pelas nascentes difusas e áreas úmidas que a reserva protege.

Fora os caminhos internos, que somam 1,2% da área, a reserva é toda coberta por vegetação. O levantamento do Plano de Manejo mapeou um mosaico típico do Cerrado de altitude:

  • Campo sujo41,3%
  • Cerrado ralo23,8%
  • Campo úmido20,4%
  • Campo de murundus6,0%
  • Área alterada, em recuperação4,4%
  • Mata de galeria, na beira do rio2,6%
  • Vereda0,3%

Os campos de murundus são a paisagem mais singular da reserva: pequenos montes de terra, com menos de dez metros de diâmetro, onde crescem arbustos e árvores, espalhados sobre um campo úmido de gramíneas. São ambientes frágeis, ligados ao lençol freático. O Plano de Manejo registra ainda plantas endêmicas e ameaçadas de extinção, como a acácia Mimosa cyclophylla, criticamente ameaçada, e sempre-vivas do gênero Paepalanthus.

Quem vive aqui

Em três dias de campo, os pesquisadores registraram 85 espécies de aves dentro da reserva. Somados os registros das RPPNs vizinhas, são 145 espécies que usam esses ambientes. Cinco das espécies registradas são endêmicas do Cerrado: o chifre-de-ouro, o meia-lua-do-cerrado, o soldadinho, a cigarra-do-campo e o papagaio-galego. No inventário do entorno aparecem também o papa-moscas-do-campo e o mutum-de-penacho, considerados vulneráveis pela IUCN. Arara-canindé, tucanuçu e maracanã-do-buriti completam a lista.

As armadilhas fotográficas não flagraram grandes mamíferos no levantamento, mas nas reservas vizinhas já foram registrados o lobo-guará, vulnerável na lista nacional de espécies ameaçadas, o veado-catingueiro, o cachorro-do-mato, o ouriço-cacheiro e o tatu-do-rabo-mole. Como a RPPN faz divisa com o Parque Nacional, espera-se aqui a mesma fauna do Parque.

Parte de um corredor de conservação

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, vizinho da reserva, foi criado em 1961 e ampliado em 2017 para cerca de 240 mil hectares. Junto com o Parque Nacional das Emas, forma as Áreas Protegidas do Cerrado, Patrimônio Mundial Natural da UNESCO desde 2001. A reserva também fica dentro da APA de Pouso Alto, área de proteção ambiental estadual de 872 mil hectares em seis municípios da Chapada.

Com as RPPNs Campos Úmidos Vochysias, Murundu, Terra Vochysias e Biorregional, a Vita Parque forma um conjunto de reservas privadas que amortece a pressão da cidade sobre o Parque e serve de ponte para a fauna. Esse papel pesa: o Cerrado segue como o bioma mais desmatado do país, com 540.614 hectares perdidos em 2025, 54,9% de todo o desmatamento nacional, segundo o MapBiomas. Em 2025, o Vita Park aderiu à proposta do Mosaico Veadeiros–Paranã, que busca o reconhecimento do Ministério do Meio Ambiente para a gestão integrada de 42 áreas protegidas da região.

A Funatura e o Plano de Manejo

Toda RPPN precisa de um Plano de Manejo, o documento técnico que define o zoneamento, as regras de uso e os programas da reserva. O da Vita Parque foi feito em 2025 pela Funatura – Fundação Pró-Natureza, uma das organizações pioneiras na conservação do Cerrado. Fundada em Brasília em 1986, a Funatura esteve à frente da criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, contribuiu para a redação da lei do SNUC e hoje apoia as RPPNs da Chapada dos Veadeiros.

O plano faz parte do Projeto Aroeira para Conservação de Terras Privadas, executado pela Funatura com apoio do Funbio, por meio do Programa COPAÍBAS. O planejamento foi discutido em oficina na própria reserva, em julho de 2025, e o plano foi entregue ao ICMBio em dezembro de 2025 para aprovação. O zoneamento divide a reserva em quatro zonas:

Proteção

30,6%

As áreas mais conservadas. Só proteção, pesquisa e monitoramento.

Uso moderado

2,3%

Faixa de borda que filtra as pressões externas e apoia a prevenção de incêndios.

Visitação

8,7%

Educação ambiental, contemplação e observação da natureza, com estrutura leve.

Recuperação

58,4%

Áreas atingidas pelo fogo, em restauração.

Fogo e recuperação

O fogo é a maior ameaça. Depois de um grande incêndio em 2017, a reserva se regenerou quase toda sozinha; em setembro de 2025, um novo incêndio queimou 13 hectares, 57% da área. Por isso mais da metade da RPPN está hoje na Zona de Recuperação, e o Plano de Manejo traz um programa de manejo integrado do fogo, com aceiros, monitoramento por satélite e protocolos alinhados ao Parque Nacional. Onde a samambaia tomou o lugar da vegetação nativa, a recuperação será assistida com plantio de espécies do Cerrado.

Vista aérea do incêndio: a frente de fogo e a fumaça à esquerda, a área já queimada ao centro e o cerrado ainda verde à direita
Vista aérea do terreno depois da passagem do fogo, preto até onde se vê, com focos de fumaça ainda saindo do chão
5 de setembro de 2025. O incêndio atingiu toda esta região; dentro da reserva, queimou 13 hectares — 57% da área.

Visitação e pesquisa

A reserva ainda não está aberta à visitação. Até a aprovação do Plano de Manejo pelo ICMBio, a lei permite ali apenas proteção e pesquisa científica. Depois disso, o plano prevê um uso público pequeno e cuidadoso, concentrado na Zona de Visitação:

  • A trilha interpretativa Caminho dos Murundus, com 2,5 km e estações sobre solos, flora, fauna e sons do Cerrado.
  • O Mirante do Silêncio, plataforma de contemplação voltada para o rio dos Couros.
  • O Observatório Cerrado nas Mãos, com estação meteorológica, para escolas e pesquisadores.
  • A residência científica Murundu sem Fronteiras, para intercâmbio de pesquisadores.
  • As oficinas Ciência e Saberes do Cerrado.
  • Um mini camping de baixo impacto.

Pesquisadores e instituições que queiram estudar a reserva podem entrar em contato: a pesquisa científica é um dos objetivos centrais da RPPN.

Vinte e cinco anos de compromisso

A reserva nasceu de um gesto pessoal: o dono da terra na época decidiu protegê-la para sempre. Com apoio do Projeto Veadeiros, coordenado pelo WWF-Brasil, vieram as medições, os mapas e os documentos, e em 2001 a RPPN foi reconhecida pelo IBAMA, então responsável pelas reservas particulares. A terra mudou de mãos, foi cuidada durante anos por Sigrid Kraft, e hoje pertence ao Vita Park, que assumiu o mesmo compromisso. Como resume o Plano de Manejo: “ainda que o imóvel possa ser vendido, o pacto com a conservação é eterno”.

Perguntas frequentes

O que é a RPPN Vita Parque?
É a Reserva Particular do Patrimônio Natural do Vita Park: 23,27 hectares de Cerrado em Alto Paraíso de Goiás, protegidos em caráter perpétuo desde 2001 e vizinhos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Vita Park e Vita Parque são a mesma coisa?
O Vita Park é a propriedade de 48 hectares, com o centro de retiros e eventos. A RPPN Vita Parque é a reserva natural dentro dela; "Vita Parque" é o nome oficial registrado no ICMBio.
Posso visitar a reserva?
Ainda não. A visitação depende da aprovação do Plano de Manejo pelo ICMBio. Até lá, a área é dedicada à proteção e à pesquisa científica.
A reserva pode deixar de existir se a terra for vendida?
Não. A RPPN é gravada com perpetuidade na matrícula do imóvel e acompanha a terra, seja quem for o dono.
Quem fez o Plano de Manejo?
A Funatura – Fundação Pró-Natureza, em 2025, com apoio do Funbio por meio do Programa COPAÍBAS.
Posso fazer pesquisa na reserva?
Sim. A pesquisa científica é permitida e bem-vinda. Fale com a gente para combinar.

Fontes e leitura complementar

Os dados de vegetação, fauna, relevo, águas e zoneamento vêm do Plano de Manejo da RPPN Vita Parque, Funatura, dezembro de 2025.